
Ray,
Primeiro, uma palavra que quer estar à margem do suporte,
à margem da página e faz da página uma margem, uma outra coisa
que quer ser tátil, têxtil, tosca.
Uma palavra caindo de bêbada fora da página, mas...
Ainda na página. Em nome da margem, uma concessão
à instituição página, uma ajoealhadinha na catedral das letras:
palavra carregada de tinta em favor dos que tentam às margens.
Intróito. Ode às Musas-Palavras! Invocar sua beleza
e sua saudável nojeira!
Ai, então, as lâminas.
E entendo, feliz, que as lâminas vão além da metáfora cortante.
As lâminas são os próprios cortes. O plano de corte.
As laminações do universo. Cortes do caos. A leitura cresce de interesse.
Vejo uma Grande Lâmina: Lâmina mor
fonte de todos
os cortes
Vejo uma arte de sulcar sem ferir
Tudo isso me interessa, sumamente!
PRECEPÇÃO, Lâminas da criação Plano de Imanência da Filosofia.
Lâminas de poesia...
Ai, então, as tuas lâminas lançadas em sacrifício,
teu grito comício das massas.
Massa-cre. Pequenos objetos emergindo da página-massa.
Pequenos objetos ralando aqui no chão do cotidiano, sua cota diária.
E o que tinha dentro era gente ainda
O que tinha dentro das lâminas, dos planos, dos cortes do caos...
Sabe-se que é a voz do homem, do húmus,
da lama, do nado na lama, nado de caranguejo,
laminado, no úmido, na massa, no barro,
no papel mastigado e a-massa-do, da antipágina
marginada, papel-machê do homem de barro,
húmus págus, a página como terra cultivável.
E depois de todo este arar, de todo este sulcar
sem ferir a terra, chegamos a Será? Será?
E aí, então, o encontro com o coração da poesia,
com o ray(o) da poesia.
Poesia como metapoesia. Os cortes do Ray(o).
Seus planos de consistência para a palavra,
palavra de novo reencontrada com a força do franco falar,
palavras escritas em “lâminas de
esmeralda” (como Hermes Trimegistos),
inscritas num plano que corta o caos.
Uma lâmina para fazer as palavras vibrarem
nos encontros de seus sentidos.
Esse plano tem uma existência, uma duração,
ele dura certo tempo, sustenta-se e Parte como veio,
como se tudo se reintegrasse ao caos de onde veio,
reabsorvido à eternidade de onde foi capturado
por um corte, um simples corte, uma lâmina do caos.
O que nos resta senão ler e reler até o infinito?
Pra mim, foi assim que vivi seu livro, até a última vez que o li.
Valeu a pena.
Grande abraço.
Ricardo R. Teixeira
Médico sanitarista, doutor em Medicina Preventiva (FMUSP) e especialista em Comunicação (ECA/USP). Consultor matricial na área de Redes e de Inteligência Coletiva.Coordenador do projeto Rede HumanizaSUS.
São Paulo, 27 de setembro de 2009.
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