quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

UM ESCAMBO DE MUITA PAZ


Júnio Santos e sua exímia capacidade de improvisar

durante o Espetáculo Lâminas, dando-nos

lições de como atuar envolvendo o público,

enriquecendo o roteiro cenopoético a partir de situções

concretas, mas repletas de simbologias que nos

transportam para reflexões sobre os próprios modos

de produção e as possibilidades infinitas do Movimento Escambo.



Por Ray Lima


Um Escambo de paz
O Escambo de São Miguel do Gostoso foi isso. Um encontro de paz e relação amorosa entre os artistas e a cidade. Amor à primeira vista. Para se ter uma ideia estávamos tomando café numa padaria, depois de uma viagem cansativa de nove longas horas de Fortaleza para São Miguel, quando fomos abordados por uma garçonete nos perguntando se éramos do Escambo. Respondemos que sim. Ela então nos informou, apontando para uma senhora que também lanchava na padaria, que não precisávamos pagar nada porque aquela senhora bancava nossas despesas. Em seguida, D. Ieda, como se chama, pediu licença, sentou conosco e quis saber mais sobre o movimento. Após uma boa conversa confirmou a informação da garçonete, indo mais além: resolveu nos adotar arcando com o café da manhã para o grupo Pintou Melodia na Poesia, durante todo o evento. Uma demonstração de solidariedade e compromisso com a vida cultural da cidade. Coisa que a própria prefeitura não demonstrou. É claro que chegando à escola onde nos alojamos propusemos um revezamento entre os grupos presentes para compartilhar o saboroso café. Assim o Escambo se deu no mais puro convívio com a comunidade e sua população, sem incidentes, sem problemas.


Da força e do saber coletivo de repente se improvisa
Já diziam os grandes mestres que improvisa quem sabe, quem tem acúmulo e criatividade suficientes para agir sobre a orientação de um plano mínimo sem se perder nem vacilar. Ninguém consegue improvisar em cima do nada. Pois bem. O Movimento Escambo Popular Livre de Rua tem revelado essa capacidade. Em seus 20 anos de luta, resistência e poder criativo tem proporcionado aos escambistas e às pessoas dos lugares aonde vamos momentos de extrema riqueza artística e produção do comum que mobiliza e encanta. Quem não conhece o processo do Escambo pode imaginar um caos ou algo muito organizado, exaustivamente planejado e ensaiado para se chegar a tantos resultados com qualidade. A força da participação e da gestão coletivas faz desse movimento uma potência real com poder de realização impensável nas condições e conjunturas em que tem atuado.

Jadiel Lima em Lâminas

A experiência de produção e gestão dos jovens

Crianças dos Sem Terra, Assentamento da Barra do Leme-CE, mostram
suas novas produções poéticas, numa relação intergeracional própria do
Movimento Escambo desde seu nascedouro.
Não há dúvida de que a coordenação local do encontro tendo a frente Filippo Rodrigo e Patrícia Caetano, apoiados pelos componentes do Bando La Trupe, deu o mote da tranqüilidade, do ambiente de paz e democracia. Acho que eles inovaram ao não cobrar das comissões de organização do encontro e do próprio coletivo o cumprimento de suas tarefas. Os contratos, os acordos eram firmados e cada grupo que tratasse de dar conta, não havendo maiores cobranças nem pressão sobre quem quer que seja. A conseqüência é que desta forma acabava ficando mais claro quem estava blefando. Neste caso todos se beneficiando ou pagando altos preços de acordo com a postura e a atitude de cada comissão e ou do todo presente. Isso poderia ter levado ao caos como poderia gerar um processo de conscientização que, em parte trouxe reflexões importantes, puxando a responsabilização pela realização do evento para o coletivo e não apenas deixando-a pesar sobre os ombros, como de resto em alguns casos também ocorreu, do grupo que sediou o encontro. Contanto, foi um Escambo de bons espetáculos, de boas conversas, discussões e debates profundos; de escambares animados e participativos; de banho de mar, birita para alguns e luta serena e pesada (ainda) para outros. Talvez seja esse último um dos pontos que permanecem como desafio a ser superado pelos escambistas: a sobrecarga nos grupos anfitriões. Acreditamos que as coisas mudarão à medida que o Escambo for se tornando mais ESCAMBO, quando se enraizar em cada um de nós como prática e cultura coletiva.

Presença do Amir
O fato de o Amir estar participando dos encontros do Movimento Escambo, além de acrescentar-lhe importância, traz-lhe também uma contribuição do ponto de vista estético, filosófico, político muito grande. O Amir Haddad tem a madureza, o acúmulo teórico e prático de quem fez opção pela rua quando poderia estar desfilando pelas coxias e palcos do teatrão. O Boal, seu velho amigo e grande mestre dos oprimidos, se foi, mas ele segue firme conosco a refletir e a nos cutucar com a língua pontuda de suas utopias. O Amir não é propriamente um intelectual da rua ou do teatro popular. Ele é um exímio pensador do nosso teatro, do Brasil, da contemporaneidade. Suas ideias e reflexões estão impregnadas de humanidade, de gosto pela vida, pela alegria de ser gente a partir do olhar artístico, estético. Noutras palavras nos engrandece, alimenta e nos honra. É verdade que, como ele mesmo diz, aprende com o movimento, mas sempre traz muitos ensinamentos. E obviamente não é daqueles que chega com tudo na maleta para despejar, não é de fazer conferência, pré-fabricar teses e empurrá-las a qualquer custo. Aliás, não anda com nada. Sequer carrega uma mochila, uma pasta, um caderno. Não usa data show nem exibe imagens prontas. Confia na memória e em sua potente tecnologia do pensar de improviso, de processar os olhares sobre o mundo, transformando-os e traduzindo-os simultaneamente para algo visível a olho nu, inteligíveis, ao alcance de qualquer mortal. Um homem sem apetrechos, leve. Um filósofo sem frescura nem pantim. Lembrando o João Cabral de Melo Neto, em “catar feijão,” o Amir é cuidadoso e preciso no que fala. Vai colhendo-lendo com maestria imagens e fatos do cotidiano, do que se passa ao seu redor como se debulhasse uma espiga de milho e processasse os grãos que vai selecionando rapidamente para nos ofertar, transformando aquilo que há pouco era um cereal cru, duro e quase sem gosto, um manjar-munguzá do saber gostoso, nutritivo, rico e novo. Porém, faz isso sem o medo de revelar como se dão os mecanismos de produção de conhecimento - sem apontar receitas ou fórmulas fáceis, mas ajudando-nos a aprender a gostar de pensar e repensar nosso fazer artístico - e de como fazer uso dos conhecimentos que produzimos para construir estratégias de existência digna, emancipadoras, de intervenção na história e nos contextos de injustiça e desigualdade social do Brasil e do mundo. No entanto, tenho observado desde Umarizal que alguns grupos não atentaram para o privilégio de contar esse mestre das artes de rua e da cultura popular em nossos encontros e de efetivamente tê-lo como escambista. Uma presença pedagógica, marcante e inovadora sempre porque produz suas reflexões a partir do que está vivendo.


A produção da roda pela comunidade de Reduto para o espetáculo Maníaco do Prato com
a CIA ARTE E RISO - Umarizal-RN

Da produção à apropriação dos modos de produção
Do poder de capital não há o que esperar. Do poder político, preso às amarras dos financiamentos de campanhas eleitorais e à indústria das propinas; e, por outro lado, pressionado pela massa desesperada e oprimida pelos dois muito menos. Resta-nos apostar no poder popular advindo do âmago desses desesperados ainda não tragados pela onda do desespero.

“resta agora abdicar[1]
desse poder que fere e mata
e nos arrasta para uma arena desigual
onde o boi é o bandido
e a plateia o oprimido no varal”

Entre estes estamos nós artistas que podemos desempenhar um papel fundamental para a transformação desse quadro desbotado que parece nunca descobrir e assumir outras cores. Chegou a hora, cito o poema que diz muito sobre o Escambo e o desafio de ser artista popular no Brasil:

“ É PRECISO QUE SEJAMOS FILÓSOFOS
É preciso aprender a semear com a máquina do tempo[2]
É vital, mais que vital inventar
Vida e verdade, sonhos e realidade
Razão com alegria bailando
Sobre o espelho das águas perenes.”

Ainda esperamos coitados as chuvas do céu
Quando devemos fazer chover no chão de caos e ilusão
Umedecer as pedras, fazê-las verter poesia
Transformar em vida a energia do sol em desperdício
Que hoje nos flagela e definha

A fome indústria cega e daninha há de ser
O instrumento maior de transformação
Tinta e pincel
A reflexão, o painel sobre a eterna falta

Sobre a miséria a ação, o desenlace sem queda
A inteligência carcomida pela força da moeda
Será o túmulo dos canibais de consciências

É imprescindível e inevitável que sejamos filósofos
Filósofos de nós mesmos
Criadores e semeadores da nossa própria filosofia
Recriadores confessos do nosso rosto
Decoradores do espaço reservado à nossa causa
Defensores incessantes do grito de liberdade
Do motivo do nosso choro, da grife do nosso riso
Precisamos estar sempre dispostos a corrigir nossos costumes
Mergulhar no abissal dos nossos valores culturais
Para que venhamos festejar nossa vanguarda
Celebrar a estética do brilho estelar da nossa alma
A estiagem haverá de ser o nosso eterno objeto de estudo
A resistência nosso princípio nossa viagem”


Esse conhecimento, essa filosofia, essa práxis da inventividade, da
superação emancipatória está no dia a dia da nossa gente.
Veja na foto que solução incrivelmente rápida, uma demonstração
de como se constrói em segundos uma roda, uma arena, um espaço
de confraternização e aprendizagens, um verdadeiro teatro popular.
(Apresentação da Cia Arte e Riso com o espetáculo Maníaco do Prato ,
na Comunidade de Reduto-São Miguel do Gostoso-RN

Para tanto, temos que solucionar alguns probleminhas aparentemente bestas, mas que refletem o quanto precisamos avançar para sermos autogestores, autônomos, livres, emancipados. O poeta Reginaldo, numa pequena roda de diálogo, daquelas espontâneas, falava sobre a questão da alimentação e do transporte que são nós críticos ou estrangulamentos carecedores de saídas mais sustentáveis, precisando ser discutidos e levados à prática pelos grupos. O poeta defende que esses dois itens devam ser uma responsabilidade de cada grupo como era, em parte, no início do movimento. Cada um produz suas condições para chegar e estar em cada encontro. Parece castigo para quem não dispõe de políticas culturais e sociais consistentes nos municípios ou radicalismo por parte do poeta, mas entendemos que proposições como essas podem servir para refletirmos sobre a construção de autonomia e não dependência dos grupos em relação não só aos encontros do Escambo, mas ao seu fazer artístico onde vivem. Por que não pensarmos numa economia do Movimento Escambo? Como nos sustentamos hoje e o que precisamos para garantir nossa longevidade com decência? Não sei como seria, não sou economista. Mas se pensarmos que a pessoa, a família mais pobre do mundo consegue inventar maneiras para viver, sustentar-se vivo, por que nós artistas populares não aprofundamos o tema e investigamos sobre a invenção de nossa própria economia, fora da lógica de mercado, a partir da experiência do existir de vinte anos? Quais nossas reais potências? Que tecnologias e estratégias de sustentabilidade estão produzindo nossos grupos em seus lugares? Qual o potencial de troca que possuímos? Como desenvolver uma economia, uma produção cultural inspirada nas próprias tecnologias acumuladas pelo Escambo? Na cultura popular há vários exemplos de modos de existir, resistir. Onde estão e como mapear tais experiências? Quantas famílias antigamente passavam o ano produzindo para se manter e guardar algum trocado para ir às festas da padroeira da cidade. Era uma verdadeira produção: plantar, regar e colher para no dia da festa está de roupa nova, sapato novo e alguns trocados para brincar e espraiar sua alegria de interagir com o outro e compor com brilho a humanidade da festa. A lógica era: se preciso ir à festa, gosto e necessito de brincar tenho que criar as condições, trabalhar com afinco para garantir minha presença participante na festa. Como beber nessas fontes? Nós artistas temos o poder da expressão que vale por muitos mercados. A expressão, como diz Amir Haddad, “é uma conquista e não uma dádiva divina. A expressão é uma necessidade absoluta do ser humano e por isso não pode estar submetida a dogmas ou ideologias.” Não seria aí que residiria nosso poder de fogo, nossa potência para tornarmos o mundo e a vida na terra mais leves, sustentáveis e prazerosos. Se somos capazes de recriar o mundo por meio da arte o seremos para inventar uma economia que seja mais favorável às nossas práticas vitais. Portanto, se o escambo é troca e todo mundo quer trocar, mãos à obra que outros escambos estão para acontecer. Entretanto, não basta querer ir aos encontros, é vital que nos façamos significativamente presentes pelo papel que desempenhamos em nossos grupos e pela ação que praticamos para o fortalecimento desse coletivo revolucionário e em pleno voo.

Fortalecendo a ideia de ocupação dos espaços públicos, principalmente as ruas.



O grupo Grafiticidade, de Fortaleza, aproveita os escambos para embelezar as escolas que nos hospedam.

Muito embora sem cercear outras possibilidades, não temos como abdicar das ruas como espaço primordial de nossas práticas culturais. Ocupar as ruas é, como diz Amir Haddad, dar-lhe mais humanidade, mais alegria, paz. É torná-la mais pública, menos privatizada e mais democrática. Não podemos aceitar que privatizem as praças, os logradouros públicos. Eles existem para serem lugares de gente feliz, de convívio social.


Deixando o ser artista mais forte
O poeta Jailson, de Recife-Pe, tira da história de seu povo e do chão
em que navega os motivos e a potência dos seus versos de carnte e osso.

Aqui nos utilizamos das palavras do Ricardo, de Fortaleza, para ilustrar o que o Escambo representa para nós, seja para está chegando pela primeira vez, seja para quem tem anos de estrada:

“OI GENTE LINDA.
Pois é . . . mais um ESCAMBO em nossas vidas.
Muita Arte em toda parte.

Deixa EU contar uma coisa pra VCs.
Esse ESCAMBO com toda sua dificuldade pra mim foi de muita superação.
E é esse o sentido de ESCAMBAR de TROCAR, vc entende realmente o sentido do Movimento. Vc se encontra nele, vc contribui com o que pode.

Esse de Gostoso (São Miguel do Gostoso-RN) mexeu muito com as pessoas que estavam indo pela primeira vez. E mexeu mais ainda naquelas que já estão no movimento há mais tempo.

Uma coisa é certa cada ESCAMBO com suas diferenças, suas semelhanças e suas Historias.

Volto mais fortalecido, pois o ESCAMBO nos faz isso.
Fortalece mais e mais os grupos que dele participam.

E a ideia é sempre continuar ESCAMBANDO pelo meio do mundo, levar esse movimento além do horizonte.

Um Grande abraço pra todos e todas que tornaram possível esse XXV ESCAMBO.
Ricardo Furão - escambista, pastor da chama real e loirim

Paramos por aqui. Ando ainda entre o furor da alegria escambista e a anestesia da tristeza pela perda de um irmão querido.

“Hoje eu ouvi um bem-te-vi
[3]
Cantar cantar
Também ouvi o juriti
Dizer que a vida é feito um canto
Quem canta encanta
Então é feliz
É tão bom cantar
Cantar cantar cantar
Tomara que essa gente
Seja assim feliz
Pois sou feliz cantando”


[1] Lima, Ray. Lâminas. Expressão Gráfica. Fortaleza 2009.
[2] Lima, Ray. Tudo é Poesia Vol. I Queima Bucha 2 ed. Mossoró-RN 2005
[3] Musica de Jadiel Guerra


11 comentários:

Ray Lima disse...

Grande poeta Ray
raylimalima | dom, 24/01/2010 - 11:18.
Grande poeta Ray Lima,

Mesmo não indo ao escambo de são miguel do gostoso... eu tive o prazer de me sentir lá... lendo estas poucas palavras, eu pude perceber a importancia desse movimento para cada grupo que o compõe...são as diferenças e as vivencias que cada escambo trás que nos ensina mais e mais sobre nossas vidas em nossas comunidades... estamos escambando... somos escambados...

Ao falar de Amir você nos deixa tranquilos e protegidos por um profeta sábio, que viveu e vive das experiencias dos caminhos da vida!!!

Sobre as palavra do poeta reginaldo... eu também concordo, porém ainda há muito que caminhar... talvez nem nossa segunda geração chegará a essa ação de alto conhecimenhto e conscientização politica e participativa... é preciso ter cuidado e não tomarmos decisões individuais, mesmo que seja em favor do coletivo, pois eu entendo que o coletivo possa passar por uma multação e torna-se um...

Márcio Firmiano - Grupo Semearte de Teatro de Rua – Fortaleza-CE
abraços

Ray Lima disse...

Olá Ray
Aproveitei e publiquei no blog www.teatroderuaeacidade.blogspot.com

Grande abraço,

Adailton Alves – Buraco D’oráculo – São Paulo

Ray Lima disse...

Grande poeta,

Publicamos essas suas ideias em nosso blog: www.ciranduis.blogspot.com

Acreditamos na ideia que surge da cabeça do povo e que nossa fortaleza maior é o trabalho. A prática de refletir tem nos ajudado constantemente a trilhar sobre os caminhos de espinhos de Janduís.

CIA. CIRANDUIS – Janduís-RN

Ray Lima disse...

Belíssimo Texto,
raylimalima | dom, 24/01/2010 - 13:23.


Belíssimo Texto, Ray.

Até mais tarde,

Abraços fraternos.

Ednaldo Vieira
Ambientalista, poeta e educador físico -ednaldo@carbonofixo.com

Ray Lima disse...

Você nos trouxe o Escambo...
Elias J. Silva | seg, 25/01/2010 - 22:15.
...E após fazer uma leitura atenta dessa densa e maravilhosa reflexão-ação afirmo que os participantes que estiveram neste Escambo precisam, assim como você o fez, compartilhar essa bagagem que trouxeram, como forma de reprodução simbólica do Escambo nas suas comunidades e nos seus grupos de origem. Creio que a arte com toda licença que ela tem pode sim inventar uma nova economia, na verdade, uma antiga economia - milenar: que o próprio nome escambo já bem a define.
Somem-se as experiências ancestrais de auto gestão individual e coletiva, adicionem-se aí os valores e preceitos comunitários, dividam-se as tarefas de modo que predomine o conceito prático do "um por todos e todos por um" e ainda multipliquem-se as iniciativas de se colocar tudo em comum...Assim, a arte e a cultura popular se transformarão numa potência capaz de derrubar os muros que ainda separam muitos artistas populares, muitos movimentos e muitos atores que poderiam contribuir com esta forma de economia...

Abraços,
Elias

Ray Lima disse...

Estamos de acordo...
Elias J. Silva | seg, 25/01/2010 - 22:56.
...E lamento que todos nós estejamos amarrados nesses caminhos convencionais, vendo a multidão nas filas...a nossa arte livre, o nosso corpo condicionado, nossa mente em voo e nossas mãos meio que atadas ao sistema...E a mídia que fazemos com e pela nossa arte não ocupa as praças e não chega à massa, como chega uma certa arte vendida no mercado do horror e fartamente consumida pelos que estão nas filas...
Elias

Ray Lima disse...

Pois é Elias. Imagine essa
raylimalima | seg, 25/01/2010 - 22:30.
Pois é Elias. Imagine essa lógica também no campo da saúde. Quantos recursos que não se encontram na forma de papel moeda ou de metais preciosos estão disponíveis e ao alcance dos cidadãos e são ignorados ou disperdiçados pelos poderes públicos e pela própria população. Equanto isso uma multidão padece em filas intermináveis atrás do emprego ofertado pelo mercado que nunca virá ou se vier chegará muito tarde. Quanto tempo gasto em busca da saúde incerta ou apenas para alguns prometida pelas tecnologias de última geração. A vida segue e essa gente toda com a santa paciência de boca escancarada e já sem língua, nem dentes, nem voz esperando a morte chegar.


um abraço,

Ray

Ray Lima disse...

Querido Amir, minhas
raylimalima | qui, 28/01/2010 - 09:12.


Querido Amir,

minhas palavras são muito sinceras e as sustento aonde for. O que disse sobre e quanto a você é pouco diante do que tem produzido neste país em termos de cultura, especialmente no campo do teatro.

Quanto aos recursos, ou mais especificamente à grana que precisamos para trabalhar e exercer nosso ofício com dignidade como qualquer outro cidadão, e você é exemplo de luta e resistência para nós, apenas reflito que o Escambo, além disso, vem criando e efetivando seus modos, suas estratégias de existência que, sem negar as conquistas de financiamento existentes, pode aprofundar a prática dessa capacidade instalada/construída coletivamente há vinte anos. Nós nunca negamos o apoio público ao Escambo, mas não nos limitamos a ele. Quando o estado falha e, quase sempre falha, nós, como grande parte da população encontra formas para continuar vivendo. Talvez não da forma como gostaríamos, mas seguimos. Inclusive poderíamos, por isso mesmo estar exigindo mais desse estado precário que não chega junto ou não tem reconhecido a altura nosso poder criativo e o trabalho que desenvolvemos. Enfim, não negamos o papel do estado e sua dívida eterna com a cultura em geral, particularmente com a cultura popular brasileira, porém reafirmamos o poder de fogo das experiências culturais da nossa gente que não pode e não deve esperar os efeitos da caneta de um burocrata que pouco conhece, ou que muito conhece e mudou de lado, ou ainda que odeia cultura popular. Temos que, ao mesmo tempo que lutamos por dias melhores daqueles que fazem e praticam cultura em nosso país, aperfeiçoar nossas tecnologias de emancipação e interdependência(já autonomia absoluta é praticamente impossível). Agradeço pela crítica, aprendemos muito contigo. Vida que segue, Escambo que segue em sua roda virtual.

Um cheiro,

Ray Lima

Ray Lima disse...

2010/1/27 AMIR HADDAD

Caro Ray,

Suas palavras me deixaram trêmulo. Entendi, pela primeira vez na vida, o que é estar de bola cheia. Você encheu minha bola. Espero estar a altura de sua generosidade. Obrigado.

Quanto ao Escambo: preocupo-me com o nosso amigo querido, o Junio. E também com sua saúde. Acho que o Escambo, é claro, teria que ser auto-sustentado como você sugere, embora seja difícil. É bom porque nos garante liberdade. Mas algum dinheiro do governo é bem vindo, pois o dinheiro é nosso não deles. Precisamos descobrir um meio de chegarmos a ele (Editais, prêmios, etc) para a garantia dos serviços básicos do Escambo, de maneira a nos proporcionar também um tempo para maior reflexão sobre nosso oficio e nossas práticas. Temos que lutar por apoios sem perder a liberdade. Se tivermos dinheiro vamos aprender como trabalhar com esta ferramenta. O Brecht dizia que miséria não é condição das virtudes. Podemos descobrir novas virtudes na abastança.

Bjs
Amir

Ray Lima disse...

ESTAMOS AVANÇANDO - Júnio Santos
raylimalima | seg, 25/01/2010 - 12:41.
Estamos de fato avançando, e muito. Nunca terminamos um escambo na história pra se ler tantas e tantas considerações como agora. E tão pertinentes, muito pra cima. O Ray Lima, que nunca deixou de escrever às vezes que foi ao escambo e sinto, agora com o XXV em São Miguel, que sua volta já é um fato consumado; o Jair, que conseguiu nos lembrar sua primeira vez e o quando reconhece a importância do escambo em sua vida. Outros e outras estão escrevendo e nós aqui guardando pra ver o que podemos fz com tanto material. Claro que ainda falta muita gente pra falar desse escambo de superação e de coraGEM. Eu saio do escambo de São Miguel ciente e convicto que não precisamos ficar correndo com pires nas mãos de prefeitura em prefeitura, de secretaria para fundações, levando na cara respostas negativas, chá de cadeiras, engolindo abuso dos funcionários públicos que já não aguentam mais a gente e que nós ainda os pagamos. Eles é que devem vir atrás da gente pedindo pra apoiar, pra ser parceiros e nós ainda vms avaliar se é necessário ou não. Nós temos ao nosso lado a população ávida por arte, por alegria, pela descontração que levamos na bagagem e pelo compromisso que temos com o que fazemos. Nós não oferecemos nem pão, nem circo e nem trocamos nossa arte pelo voto do espectador, pelo contrário, nós ainda perguntamos e colocamos dúvidas: será que vale alguma coisa votar? Será que é democrático o voto obrigatório? Será que há democracia numa eleição com tanta diferença econômica entre os candidatos? Esse é o nosso papel. Não fazer a cabeça do povo, não cobrar pelos compromissos, pelo que oferecemos, deixar que ele pense, reflita e decida o que fazer. São Miguel é a prova real de nossas possibilidades como artistas populares de mexer, tomar posse, mobilizar, envolver e comprometer a população. Muitos colaboraram. Os que puderam, mesmo com pouca condição financeira, nos ofertaram cestas básicas, água, banho, lanches, cafés da manha, quilos de peixes, afeto, carinho e respeito. Esses são os nossos parceiros. Os que buscam com o dinheiro do povo barganhar e se promover são os nossos PARECEIROS, aparecem porque sabem que o escambo não se acovarda e não fica esperando a maldita e comprometida grana que eles por um tempo administram do jeito que bem quer.
Um mês de preparação e no final um escambo de aconchego, de bons espetáculos e principalmente da certeza que precisamos ainda discutir muito em nossos grupos sobre a participação dos componentes, o compromisso de todos que vão e que dizem ser escambistas.

Ray Lima disse...

Estamos avançando (cont.)
Não podemos mais aceitar o que vimos. Aquela ruma de gente indo curtir na praia, ficar deitada namorando nas redes ou dormindo, enquanto rolava dinâmicas, conversas, debates, espetáculos e encontros por todo colégio e por toda a cidade;
As pessoas gastando água com banhos enormes e repetidos, deixando torneiras abertas, não usando as descargas direito, sujando e não limpando;
Muitas se chateando com alimentação, provocando escambistas que estavam na cozinhando, desrespeitando os companheiros que estavam trabalhando e garantindo alimentação para os que estavam apenas passeando.
Algumas rodas no pátio com música de péssima qualidade, repetindo o dia-a-dia de suas cidades, enaltecendo a cultura de massa e fortalecendo a ideologia burguesa do consumo.
Muita gente nova que chega a um escambo sem saber o que é e que também não desperta interesse de contribuir com nada. Porque os grupos não preparam melhor quem convida pra ir ao escambo?
Creio que temos que pensar em outras formas de recepção. Temos que já chegar no próximo escambo comprometidos com alguma atividade. Temos que criar uma comissão de motivação, que percorra as salas incentivando os grupos a mantê-las limpas e atraentes pra poder receber a visita de outros grupos e da comunidade. Mobilizar e motivar pra participar das rodas de conversas; das diversas comissões; ser e sentir util no escambo e não ficar quatro dias de pernas pro ar zombando da cara de quem tá se matando pra fazer a convivência ser melhor.
Quem tá pensando em fazer o XXVI escambo deve pensar nisso e desde já começar a propor na REDE. Janduís e a região já levanta a possibilidade; Fortaleza ventilou em São Miguel mas não colocou nada na rede sobre a possibilidade. Como é dificil vencer as distâncias, mesmo de vizinhos, de uma cidade grande.
Em São MIGUEL alguém falou: "precisamos fazer um escambo no Ceará porque só quem faz é o Rio Grande do Norte". Pra mim isso é muito claro. No Ceará a maioria dos grupos entraram há pouco tempo no Escambo, de 2005 pra cá. No RN os grupos estão há mais tempo e sabem da necessidade que têm de fazer, realizar e viver um escambo. Por isso que Janduís e a região já ventilam a realização do XXVI Escambo por lá. Outra coisa facilita: a certeza de como é fácil se fazer um escambo numa cidade pequena, onde a comunidade necessita do movimento e o movimento necessita da comunidade.
Só espero que seja onde for que seja pra breve, antes mesmo de junho, da copa e da eleição, porque em seguida estarei fora do país e não quero de longe ficar escutando notícias em vez de viver mais um escambo.
Tenho certeza e concordo com o CATARINA, o escambo além pagar as minhas contas alimenta a minha alma de artista-cidadão.


Junio Santos - Cervantes do Brasil