
Não há soldado que dê vida
a tantos corpos entre escombros
espatifados pela história
Não há mais glória: salve! salve!
senão seres esprimidos
oprimidos pela fome do dinheiro
Não há herói nesse estaleiro
não há ciência nem sapiência
senão mau uso da riqueza e do poder
Não há o que esconder
da foice bomba do abalo sísmico
do capital
Que no dia seguinte feito um psicopata
lá está ele chorando a morte da vítima
a secar os olhos com a ponta da gravata
Talvez pensando na próxima... mas
deixando escapar ao mundo sua gula infame:
Quero beber o caldo putrefato da massa cerebral
do povo haitiano - não há mais sangue para sugar
Quero devorar para sempre o sonho desse povo
que quis um dia ser feliz e livre
Quero amanhecer no Haiti
devastado por esse desejo capital!

Quero rodopiar feito vodum
da pena capital que lhe imputei
ao espírito em decomposição
Quero dar um grito-risada: MENTIRA!
estampada na expressão
e lá de cima do avião
repleto de gentis soldados da ONU
acenar com o alimento perecível da globalização
Quero disparar um peido-bomba
no salão nobre e cavernoso das narinas da civilização
ocidental a não escaparem
nem direita
nem esquerda
nem centro

abalo de cima
pelo sinal da carrapeta
ó, civilização ocidental
civilização da mais valia
quero vê-la passar bem
quero vê-la passar mal
tragada pelo próprio veneno
em toda parte
no corpo da ciência
no corpo da fé
no coração da economia
no cerne das linguagens
na arte inté
Ray Lima - cenopoeta e fundador do Movimemo Escambo Popular Livre de Rua
Saber mais: wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com


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