sábado, 3 de abril de 2010

AMIR HADDAD FALA SOBRE A RELAÇÃO TEATRO E EDUCAÇÃO




Em todas as épocas, em todos os tempos o teatro sempre cumpriu um papel didático, com a preocupação especifica de cumprir esta função ou sem essa preocupação a atividade teatral esta sempre provocando algum tipo de reflexão.
O teatro Grego tinha uma função didática muito importante ele como que organizava o pensamento e a vida comunitária das cidades Gregas.

O teatro faz parte da rotina escolar, nas escolas que tem o objetivo de formar cidadãos de primeira classe, o teatro é uma atividade permanente e indispensável. Nas escolas públicas onde temos ocultas a idéia de formar mão de obra para as elites, cidadão de Segunda classe, o teatro passa a ser meio alternativo, quase que temos de preparar as pessoas para assistir uma peça de teatro.

Temos que ter outra educação uma educação que funcione como fator de .libertação do ser humano.

O teatro perde em qualidade quando não cumpre a função da reflexão, também não se pode tirar o seu aspecto lúdico. O teatro é prazer aliado a reflexão, as duas coisas andam juntas. Sem a reflexão o prazer fica menor e sem o lúdico fica insuportável.

Quando se vai usar o teatro como didática não pode ser desprezado aspecto principal que é o lúdico. Só a reflexão fica igual as pedagogias que massacram a cabeça da gente e que passamos até a associar o aprendizado com a tortura. O homem ao mesmo tempo que tem prazer com o jogo, com a brincadeira, ele tem o prazer da reflexão. Não dar para dissociar o prazer do conhecimento, nem o conhecimento do prazer. O conhecimento é uma fonte prazer se nós recebemos a informação com prazer é o ideal.

Na nossa história judaica/cristã/ ocidental a idéia do prazer está ligada a do conhecimento profundamente. Quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, comeram o fruto da árvore do conhecimento. Eles quiseram se igualar a Deus e por isso foram expulso.

Essa idéia do conhecimento ligado ao prazer é tão forte, que se costuma contar a história de maneira a confundir, que foi a possibilidade de prazer devido a sensualidade da Eva que levou o Adão, o homem, morder o fruto do saber. O prazer e o conhecimento estão sempre juntos.

O homem comeu o fruto da árvore do conhecimento. Todas as mitologias, todas as religiões falam disso , o homem perdendo o paraíso porque adquiriu o conhecimento. Seja maldição eterna, o homem não se controla e se empanturra, não cansa do saber, nem que para isto perca o paraíso. O conhecimento é fonte de prazer e as pessoas ficam felizes quando aprendem. O aprendizado tem que ser uma coisa natural, quando se é ensinado de maneira autoritária é que o aprendizado fica chato, uma obrigação.

Uma criança quando aprende a dizer mamãe, papai, ela morre de felicidade. Se ensinamos a bater palmas ela bate palmas e sorrir porque aprendeu. Aprender faz cócegas, a gente rir quando aprende. A maneira de ensinar autoritária, o caso das pedagogas insupotáveis é que acaba associando o aprendizado a dor.

O teatro não pode ser uma violência, ele faz crescer, faz se identificar, bate nos afetos mais profundamente. Quando o teatro leva uma informação, esta não pode ser estranha, entrando de fora para dentro violentando o mundo das pessoas. Pelo contrário, ele tem de levar a informação fazendo com que o mundo daquela população venha a tona, que ela se entenda através daquela manifestação. O teatro tem esta força de educação, de ajuntamento comunitário.

O teatro faz isto, ele reconhece a cidadania. Temos que entender a cultura como uma atividade de todos os seres humanos, não só das pessoas letradas. Porque sempre se acha que por ser pobre, ou ignorante , nunca Ter ido a escola, não tem cultura. A cultura é entendida como uma forma de manifestação superior da expressão. Isto é muito ruim porque aí vai-se levar uma cultura de fora para aquele pobre que não tem cultura. Quando não é isto, temos que reconhecer naquele cidadão as possibilidades todas de cultura, do seu modo de vida, o que ele tem e trabalha.

A partir disso, fazer com que ele cresça e se assegure do que tem dentro dele, o que ele muitas vezes despreza, porque as classes dominantes desprezam isto dele e ele ideologicamente assume este desprezo. O teatro tem a possibilidade de fazer recuperar a auto-estima. .


Amir é ator e diretor teatral, fundador do Grupo Tá Na Rua, do Rio de Janeiro. Nos últimos anos tem contribuído imensamente a partir de sua experiência como pensador do teatro no Brasil com o Movimento Escambo Popular Livre de Rua.
Fonte: Júnio Santos

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