domingo, 4 de abril de 2010

FRAGMENTOS DE UM PENSAMENTO INTEIRO*


ESCAMBIOSE ESPECIAL
Informativo de responsabilidade do Movimento Escambo Popular Livre de Rua
No. 01 2010 – Texto inédito de São Miguel do Gostoso – RN
Maranguape, 04 de abril de 2010




Por Josy Dantas*



FRAGMENTOS DE UM PENSAMENTO INTEIRO*
Vivência com o mestre Amir Haddad



Amir Haddad e Júnio Santos



O INÍCIO: A horizontalidade

O nosso teatro é da horizontalidade, nós trabalhamos com a horizontalidade, com uma cidadania mais humana. O nosso teatro estabelece uma nova linguagem, de modificação das coisas preestabelecidas. A verticalidade faz com que a gente venha com tudo pronto. Você não leva o espetáculo, o espetáculo existe. O espetáculo não está pronto nunca. Ele não está na sua cabeça, ele está no ar.

A RUA: minha casa.
Quando eu chego na rua estou em casa. A rua é meu lugar, é o espaço da minha cidadania. Eu fico tão à vontade que me dá vontade de ficar só de cueca, me despir. Mas ninguém está investindo na rua. Investe-se em decretos, investe-se em leis, investe-se em editais.

OS EDITAIS
Nem o governo mais progressista do mundo está pensando no teatro de rua. Mas ele cresce no mundo inteiro. Mas não é desejado. Nenhum projeto elege o teatro de rua como importante. Elege pessoas, elege grupos. Não é o oficial que vai fazer as coisas avançar. Seguir o edital é cumprir as regras preestabelecidas.

TEATRO E ANCESTRALIDADE
O teatro não é uma arte particular, privada. O teatro é uma arte pública, humana, inventada pelo ser. Nasceu de encontros públicos, igreja, rua, movimentos sociais. O movimento de teatro de rua no Brasil só está aí há trinta e poucos anos. Mas nós somos antigos porque fazemos personagens de todas as encarnações. Nós somos muito velhos, mas não nos sentimos caquéticos. Somos muito novos. Nós existimos eternamente. O que fazemos hoje vem sendo construído há muito tempo. Só é contemporâneo o que é ancestral. O que é ancestral é forte porque tem passado, tem presente e tem futuro. Não é o mundo que organiza o teatro, é o teatro que organiza o mundo.

ABAIXO O DIRETOR
O diretor é um produtor de ideologia. A ideologia é uma coisa que gruda em você. O diretor é uma figura perigosíssima. Diretor é uma merda! É preciso baixar o ego, baixar a vaidade. Abaixo o diretor! O ator deve desmontar a hierarquia no trabalho em relação ao teatro. Ao mesmo tempo o diretor é um produtor de afetos. O sentimento dos atores depende do sentimento do diretor. Eu tenho medo da atitude intelectual ser arrogante. Não quero ser colonizador. Minhas expedições são sempre descolonizadoras. O teatro tem que ser uma manifestação de baixo para cima, de dentro para fora.

EXERCÍCIO DA LIBERDADE
A fala é uma conquista humana. Não basta falar para estabelecer a horizontalidade. A expressão não pode ser limitada, ela tem que ser colocada para fora. A expressão não nos foi dada, ela nos foi facultada. Temos que avançar na expressão humana. Não devemos nos limitar aos modelos ideológicos: financeiros, religiosos, etc... O exercício da liberdade não é fácil. O teatro não é uma arte divina é pública! É humana! Eu gosto muito de uma frase de Jesus Cristo que diz: “O que dentro de ti, te mata, fora de ti, te salva.”

*Texto sistematizado por Josy Dantas, pedagoga, atriz e bailarina do Cervantes do Brasil, a partir do que em sua observância como integrante da equipe de comunicação foi possível colher da vivência do Amir Haddad com os escambistas, no XXV Escambo Popular Livre de Rua de São Miguel do Gostoso –RN, de 15 a 18 de Janeiro de 2010.


Edição especial: Ray Lima – Pintou Melodia na Poesia.

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