sábado, 24 de abril de 2010
HÁ TEMPO AINDA
Por Ray Lima
Bem, como ia dizendo, há muito tempo. Todo cuidado é pouco, mas há muito tempo. Às vezes nos parece um "bocado de molambos molhados manchando o chão," mas sempre que a gente olha, observa, escuta direitinho acaba descobrindo que o que tem dentro é gente ainda, é gente ainda. Um certo dia pela VOZ DA RUA
Já alertava o profeta Padinho Né:[1]
um ser que ama
não desama nem maltrata.
Gritava um homem da rua
cantando com sua voz
embargada de pigarro
em sua língua rota e nua:
lá no tempo em que nasci
logo aprendi algo assim -
cuidar do outro é cuidar de mim,
cuidar de mim é cuidar do mundo.
Me lembro um pouco de tudo;
de mim, de mim quase nada.
Por isso viver é bom, viver
é bom pra quem sabe amar.
Outras vozes, outros tempos,
outros fins pelo avesso;
sabidos são os afetos,
o amor é terapêutico.
Não se dando por satisfeito o homem da rua tenta arrancar um grito de um ser de voz já perdida como se acreditando na recuperação de sua potência não em altura, na potência física do som, mas na potencialidade e propagação do sentido que poderia dar a ela. Então primeiro chama atenção para pelo menos dois tipos de ser:
O “ SER INSUSTENTÁVEL[2]” que
Ontem, hoje, amanhã...nada.
Como água em bolha flutuar a esmo
no tempo seco, sem invernada.
Amanhã nenhuma semente semear - mais um dia
de sugação e grilagem. Justo nessa era de solstício
e estiagem encarnar uma trepadeira de qualquer espécie –
esterco volumoso em ascensão.
Amanhã: caule sem folha. Nem flor, nem fruto.
Garrancho seco, cosmético ou qualquer artifício
chamado produto.
Amanhã do que se plantar, o resto:
do fogo, a queimada;
da vida, o esqueleto, a ossada;
da humanidade, o fosso e o excremento.
E arremata com a “ SUSTENTABILIDADE DO SER[3]:”
O ser torna-se sustentável
quando revela humanidade nas atitudes,
quando constrói harmonia nas relações;
quando gera sintonia nas conversas,
nos olhares, nos projetos, nas ações.
O ser torna-se sustentável
quando a complexidade de suas idéias
e do seu pensamento torna simples
a vida das pessoas.
O ser torna-se sustentável
quando dá vida a tudo que é criação,
quando a morte não é opção -
onde o vivo torna-se mais vivo
e, à medida que vive, mais irmão.
O ser torna-se sustentável
quando se multiplica ao mesmo tempo
em que se preserva ; se valoriza a pessoa
que é, como é; se embeleza o ato de viver.
O ser torna-se sustentável
quando se mistura a biodiversidade dos universos -
do artístico ao científico, do erudito ao popular;
do humano ao não humano; do universal ao singular;
quando ganha a vida um ritmo, uma alegria, uma leveza,
um charme infinito que não encerra.”
Como a conversa encompridou-se, a praça que há pouco estava repleta de gente aos pouquinhos foi ficando vazia, vazia e o homem voltando a falar sozinho, para si mesmo. Por favor, não me peçam para dar conta dos rumos que tomaram ou tomarão essa história. Porém, o mais interessante é que cada um ou cada uma que saía dali levava consigo o peso daquele momento para alguns, a intensidade para outras, e a força daqueles gestos para todos nós. Era como se todos(as) entendêssemos que era também nossa missão como seres humanos ou desumanizados pela lógica dos nossos tempos buscar sentido para nossas relações com o mundo, com a vida e com o outro, agora redescoberto por homem totalmente desprovido de apoio, de acolhimento, de cuidado; maus tratos de uma sociedade que cobra dele a humanidade que nunca foi capaz de ofertar-lhe. Contudo, o homem da rua insistia em sua pregação livre e já sem voz nos acenava com gestos que deixavam sua mensagem mais clara do que com qualquer palavra grafada no melhor português. Numa leitura cuidadosa poderíamos decodificar mais ou menos o seguinte:
DESARME-SE[4]
Desarme-se.
Desarmo-me quando armo minha alma de paixão.
Desarmo-me quando armo um grande abraço
em torno do meu irmão.
Desarmo-me. Desarme-se.
Desarmo-me quando armo estratégias
que desasnam atitudes de amor.
Desarmo-me quando torno a dor do outro
a minha própria dor.
Desarmo-me. Desarme-se
Desarmo-me quando aprendo a não matar
o que nasceu para viver e prosperar.
Desarmo-me. Desarme-se. Aproxime-se. Abrace-me
o coração. Pulse comigo sem ódio nem dor.
Já dobrando a esquina olhei para trás, quando ele gesticulava diretamente para mim como se me exigisse uma resposta concreta, urgente e duradoura:
“Como ser em um mundo lâminas sem ferir nem se deixar[5] ferir?
Como ter o poder de corte e não cair na tentação de querer mutilar o ser do outro?
Como criar um modo de vida seguro para seres tão frágeis, mas tão potentes e perigosos também?
Como desenvolver tecnologias para uma arte de viver em paz?
Como sermos mais humanos em um mundo dominado pela lógica capitalista em que o humano em nós tem se tornado cada vez menos importante?”
Dali para frente, andei rua acima rua abaixo pensando e experimentando gestos com as pessoas que ia encontrando pela frente, formulando diálogos do tipo:
“Se tiveres que me acolher
que me acolhas por inteiro,
de vida inteira, cultura adentro.
Se quiseres que te acolha
diga-me primeiro quem és
num discurso franco e leve.
Se me quiseres mais leve,
terapeuta - tu ou eu?
O que me dás? Do que precisas?
O diálogo é que nos traz
a vestir uma só camisa
de conforto e harmonia.
Às vezes é questão de horas,
às vezes durante dias,
mas desistir também não posso.
Endosso tua palavra.
Escuto teu sentimento.
Sinto um ser em movimento.
Esqueci quem era eu.
Me olvidei de onde vim
para ser um outro em ti.
Assim posso te acolher
e contigo também eu
sublimar a minha prática.
Acho que te compreendo
em saber me transformando
mais humanos nos tornamos.
Clínica, terapia, ser cuidado; pelas
singularidades reconhecidas nos papéis
que assumimos, construímos nossos vínculos.
Agora nos aporta a tolerância
e o diálogo como guia seguro
na resolutividade dos problemas do mundo?”
(Ray Lima - in Roteiro Cenopoético para Curso de Terapia Comunitária na Oca do Índio – Projeto Quatro Varas - Beberibe-Ce – 2008. Facilitado por Johnson Soares, Vera Dantas, Ray Lima e Mayana Azevedo)
[1] (Lima, Ray. wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com)
[2] (Lima, Ray. wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com)
[3] (Lima, Ray. A Sustenbilidade do Ser. wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com)
[4] (Lima, Ray. In Tudo é Poesia Vol.I – Queima Bucha 2ª edição. Mossoró-RN: 2005)
[5]Lima, Ray. Roteiro Cenopoético Lâminas. 2009
Bem, como ia dizendo, há muito tempo. Todo cuidado é pouco, mas há muito tempo. Às vezes nos parece um "bocado de molambos molhados manchando o chão," mas sempre que a gente olha, observa, escuta direitinho acaba descobrindo que o que tem dentro é gente ainda, é gente ainda. Um certo dia pela VOZ DA RUA
Já alertava o profeta Padinho Né:[1]
um ser que ama
não desama nem maltrata.
Gritava um homem da rua
cantando com sua voz
embargada de pigarro
em sua língua rota e nua:
lá no tempo em que nasci
logo aprendi algo assim -
cuidar do outro é cuidar de mim,
cuidar de mim é cuidar do mundo.
Me lembro um pouco de tudo;
de mim, de mim quase nada.
Por isso viver é bom, viver
é bom pra quem sabe amar.
Outras vozes, outros tempos,
outros fins pelo avesso;
sabidos são os afetos,
o amor é terapêutico.
Não se dando por satisfeito o homem da rua tenta arrancar um grito de um ser de voz já perdida como se acreditando na recuperação de sua potência não em altura, na potência física do som, mas na potencialidade e propagação do sentido que poderia dar a ela. Então primeiro chama atenção para pelo menos dois tipos de ser:
O “ SER INSUSTENTÁVEL[2]” que
Ontem, hoje, amanhã...nada.
Como água em bolha flutuar a esmo
no tempo seco, sem invernada.
Amanhã nenhuma semente semear - mais um dia
de sugação e grilagem. Justo nessa era de solstício
e estiagem encarnar uma trepadeira de qualquer espécie –
esterco volumoso em ascensão.
Amanhã: caule sem folha. Nem flor, nem fruto.
Garrancho seco, cosmético ou qualquer artifício
chamado produto.
Amanhã do que se plantar, o resto:
do fogo, a queimada;
da vida, o esqueleto, a ossada;
da humanidade, o fosso e o excremento.
E arremata com a “ SUSTENTABILIDADE DO SER[3]:”
O ser torna-se sustentável
quando revela humanidade nas atitudes,
quando constrói harmonia nas relações;
quando gera sintonia nas conversas,
nos olhares, nos projetos, nas ações.
O ser torna-se sustentável
quando a complexidade de suas idéias
e do seu pensamento torna simples
a vida das pessoas.
O ser torna-se sustentável
quando dá vida a tudo que é criação,
quando a morte não é opção -
onde o vivo torna-se mais vivo
e, à medida que vive, mais irmão.
O ser torna-se sustentável
quando se multiplica ao mesmo tempo
em que se preserva ; se valoriza a pessoa
que é, como é; se embeleza o ato de viver.
O ser torna-se sustentável
quando se mistura a biodiversidade dos universos -
do artístico ao científico, do erudito ao popular;
do humano ao não humano; do universal ao singular;
quando ganha a vida um ritmo, uma alegria, uma leveza,
um charme infinito que não encerra.”
Como a conversa encompridou-se, a praça que há pouco estava repleta de gente aos pouquinhos foi ficando vazia, vazia e o homem voltando a falar sozinho, para si mesmo. Por favor, não me peçam para dar conta dos rumos que tomaram ou tomarão essa história. Porém, o mais interessante é que cada um ou cada uma que saía dali levava consigo o peso daquele momento para alguns, a intensidade para outras, e a força daqueles gestos para todos nós. Era como se todos(as) entendêssemos que era também nossa missão como seres humanos ou desumanizados pela lógica dos nossos tempos buscar sentido para nossas relações com o mundo, com a vida e com o outro, agora redescoberto por homem totalmente desprovido de apoio, de acolhimento, de cuidado; maus tratos de uma sociedade que cobra dele a humanidade que nunca foi capaz de ofertar-lhe. Contudo, o homem da rua insistia em sua pregação livre e já sem voz nos acenava com gestos que deixavam sua mensagem mais clara do que com qualquer palavra grafada no melhor português. Numa leitura cuidadosa poderíamos decodificar mais ou menos o seguinte:
DESARME-SE[4]
Desarme-se.
Desarmo-me quando armo minha alma de paixão.
Desarmo-me quando armo um grande abraço
em torno do meu irmão.
Desarmo-me. Desarme-se.
Desarmo-me quando armo estratégias
que desasnam atitudes de amor.
Desarmo-me quando torno a dor do outro
a minha própria dor.
Desarmo-me. Desarme-se
Desarmo-me quando aprendo a não matar
o que nasceu para viver e prosperar.
Desarmo-me. Desarme-se. Aproxime-se. Abrace-me
o coração. Pulse comigo sem ódio nem dor.
Já dobrando a esquina olhei para trás, quando ele gesticulava diretamente para mim como se me exigisse uma resposta concreta, urgente e duradoura:
“Como ser em um mundo lâminas sem ferir nem se deixar[5] ferir?
Como ter o poder de corte e não cair na tentação de querer mutilar o ser do outro?
Como criar um modo de vida seguro para seres tão frágeis, mas tão potentes e perigosos também?
Como desenvolver tecnologias para uma arte de viver em paz?
Como sermos mais humanos em um mundo dominado pela lógica capitalista em que o humano em nós tem se tornado cada vez menos importante?”
Dali para frente, andei rua acima rua abaixo pensando e experimentando gestos com as pessoas que ia encontrando pela frente, formulando diálogos do tipo:
“Se tiveres que me acolher
que me acolhas por inteiro,
de vida inteira, cultura adentro.
Se quiseres que te acolha
diga-me primeiro quem és
num discurso franco e leve.
Se me quiseres mais leve,
terapeuta - tu ou eu?
O que me dás? Do que precisas?
O diálogo é que nos traz
a vestir uma só camisa
de conforto e harmonia.
Às vezes é questão de horas,
às vezes durante dias,
mas desistir também não posso.
Endosso tua palavra.
Escuto teu sentimento.
Sinto um ser em movimento.
Esqueci quem era eu.
Me olvidei de onde vim
para ser um outro em ti.
Assim posso te acolher
e contigo também eu
sublimar a minha prática.
Acho que te compreendo
em saber me transformando
mais humanos nos tornamos.
Clínica, terapia, ser cuidado; pelas
singularidades reconhecidas nos papéis
que assumimos, construímos nossos vínculos.
Agora nos aporta a tolerância
e o diálogo como guia seguro
na resolutividade dos problemas do mundo?”
(Ray Lima - in Roteiro Cenopoético para Curso de Terapia Comunitária na Oca do Índio – Projeto Quatro Varas - Beberibe-Ce – 2008. Facilitado por Johnson Soares, Vera Dantas, Ray Lima e Mayana Azevedo)
[1] (Lima, Ray. wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com)
[2] (Lima, Ray. wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com)
[3] (Lima, Ray. A Sustenbilidade do Ser. wwwcenopoesiadobrasil.blogspot.com)
[4] (Lima, Ray. In Tudo é Poesia Vol.I – Queima Bucha 2ª edição. Mossoró-RN: 2005)
[5]Lima, Ray. Roteiro Cenopoético Lâminas. 2009
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9 comentários:
o que tennho a dizer é simples: Bonito.
Belíssimos Poemas, Gente!
Obrigada por ajudarem minha semana a iniciar de forma tão bela...!
Paz e Bem! Axé! Lú(ciana) Cavalcanti
Muito obrigado Ray pelo encanto poético
Muito obrigado EPS por me mostrar que o amor
e cuidado é o caminho que eu quero.
Bom domingo... Energia!!!
Rafael
Ray, amado amigo-irmão de fé e de beleza!
Quanta luz e sabedoria na tua poesia, homem de DEUS!!!
Sinto-me embalar na esperança no povir que emana de teus versos, irmão querido.
Agradeço pelo cuidado e sabedoria que transmites e que embalam meu coração, que por vezes anda cansado de esperançar e de buscar a reciprocidade nos pares.
Abração com carinho e alegria.
Silvéria Santos - GO
Parabéns por expressar tamanha beleza através da poesia. Eu também sou terapeuta comunitária e facilitadora de biodança, e fico feliz com a diversidade de expressão que enriquece as terapias e que geram vida.
Abraços fraternos
Verônica Avelino
ANEPS_RN
Grande Ray,
Essa sua mensagem me acentuou a saudade.
Me junto a Magna para dizer
Oh véi, vc a cada dia mais belo, e talvez por isso, invente essas coisas tb tão belas
Agradecido
Por aqui ando olhando o povo e me olhando
Saúde, paz, arte, pão e vinho.
Abraços
Carlos Silvan – Salvador/Recife
Bom dia Ray,
Parabéns pelo belíssimo texto.
É tão simples e fácil "cuidar do outro é cuidar de mim, cuidar de mim é cuidar do mundo ....",
Tenham todas e todos um excelente domingo e uma semana plena de realizações.
Magna
Ray, estava achando que nossa rede tinha saido de foco e eis que dirrepente, vi você neste monento como um ser iluminado, ao ler cada estrofe de sua poesia eu fiquei bastante emocionado, com lagrimas nos olhos pois assim vi a esperança, e vc om tanta amorosidade e sabedoria dos que tem o coraçao puro, com isso eu vejo a esperança do impio é como a poeira levado pelo o vento, e como uma leve espuma espalhada pela a tempestade;
ela se dissipa como fumaça ao vento.
Como dizia Paulo Freire "estou convencido, porém, de que a rigorosidade, a séria disciplina intelectual,o exercicios da curiosidade epistemológica não me fazem necessariamente um ser malamado, arrogante, cheio de mim mesmo. Ou, em outras palavrasw não é a minha arrogancia intelectual a que fala de minha rigorosidade cientifica. Nem a arrogancia é sinal de competência nem competência é causa arrogâcia. não nego a compência, por outro lado, de certos arrogantes, lamento neles a ausencia de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. Gente mais gente".
"Porque do mesmo modo que juldastes, ereis também vós julgados e, com medida com que tiverdes medido, também vos sereis medidos. Porque olhas a palha que está no olho do teu irmão e vês a trava que estas no teu?Como ousas a dizer a teu irmão: Deixa-me tirar palha do teu olho, quando tem uma trava no teu? Hipocrita! Tira primeiro a trava do teu olho assim verás para tirar a palha do olho teu irmão.
Mateus cap. (7 vv,2 a 5).
Edvan Florêncio - CE
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