domingo, 16 de maio de 2010

A CARA DE DUNGA

Moacyr Goes: A cara de Dunga
Diretor de teatro e cineasta


Rio - Há algo que não se pode exigir de alguém: que seja o que está além de suas possibilidades. Cada um tem uma personalidade constituída e sedimentada ao longo da vida e que se revela em predominâncias. Há os amantes da ousadia, do risco, da liberdade e os que se sentem bem com a conservação do estabelecido e teme o que pode fugir ao controle. Não é juízo de valor; é diferenciação.
Esta semana, saiu a lista da Seleção e, para decepção da maioria, os meninos do Santos estão fora. Muitos tinham esperança que Dunga se revelasse diferente do que sempre se mostrou, mas ele cumpre o destino de ser o que é. Eu não concordo com essa Seleção, mas ela é a cara do Dunga. Ele está fazendo o que pode. Se fosse para ser diferente, não seria com ele. Dunga jamais deu um drible na área, maravilhando a todos; o negócio dele era desarmar e, se muito, dar um chutão ao gol de fora da área. Dunga merece elogios pela conquista de 94; foi protagonista, mas nunca foi livre para a ousadia e essa sua característica é uma marca como técnico. Talento é a capacidade de fazer com facilidade o que a maioria faz com grande esforço. Dunga é esforço! Como técnico, é resultado de um erro de avaliação e de uma precipitação. Depois dos desmandos e da algazarra de 2006, era preciso um domador para por ordem no circo, e o talento individual foi confundido com desinteresse e descompromisso, que aconteceram, mas não em função da habilidade e da individualidade. É um devaneio procurar um Telê Santana no Dunga. Então, é melhor torcer pela vitória do esforço. Dunga foi corajoso ao escolher seguir sozinho, armado de suas convicções. Quem assim o faz não divide nem a glória, nem o fracasso. Vou torcer por ele e rogar a Deus que o livre do pior dos sentimentos: o ressentimento. Adeus alegria, que venha o sofrimento e a vitória.


Fonte: Jornal O Dia – online – conexão com o leitor
Rio de Janeiro, 16 de maio de 2010

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